terça-feira, 23 de julho de 2019

ah, o Nordeste!

Sou paraense. Filho de cearenses. Neto de pernambucanos e cearenses. Bisneto, trineto e tataraneto de nordestinos dos sertões. Casado com uma cearense de mãe paraibana e avós paraibanos e pai e avós cearenses. Meus dois filhos são cearenses. Se vierem com ignorância, que venham armados. Nos últimos cinco séculos, a gente mora por aqui nas mesmas paragens. Se vier em paz, tem café com tapioca e muitos livros, muita música, arte e cultura. E pouso certo. Mas também tem rebelião e revolução. Basta estudar um cadinho de história do Brasil.

Sobre lugar de fala em tempos sombrios

Sinto que o lugar de escuta é mais transformador do que o de fala. Escutar pode ser mais ativo do que falar. A passividade da escuta é uma falsa suposição. Quando o lugar de fala está repleto de ansiedades de status e de desejos de ser dominante, de querer ser aceito pelo dominante, ratificando os modelos competitivos e agressivos de conquista de posição e poder, de acumulação de riqueza, ele se torna um instrumento, um método, de poder e conhecimento que reproduz os pressupostos hegemônicos do sistema de dominação, devido justamente ao desejo oculto ou aberto de ascender ao campo do poder, a ser membro da classe dominante, a ser tão poderoso, capitalizado e temido como os senhores espoliadores. Se tornar um novo segmento da classe senhorial é um ação de poder que se esconde por vezes com a capa das retóricas liberais do empoderamento. Quem luta por poder, sucesso, dinheiro e prestígio, repete recursivamente a linhagem dos dominantes. Uma falácia que se espalhou como poeira nos olhos depois de um redemoinho de vaidades atiçadas. A vontade de poder cega.

Unidade progressista é...

Sou contra a "unidade progressista" do Andrade, proposta em artigo na Folha. Sou a favor da falta de unidade, totalidade e identidade. Contra processos de unificação, totalização e identificação. Contra hierarquias da ex-querda e seu desejo de representar o sistema do capital. A favor da an-arché.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

24 de junho de 2019

Brasil está quebrado, parado, empobrecido, adoecido e muito mais desigual. Em depressão coletiva. Apenas os muito ricos estão lucrando com a crise. Se continuar assim até 2020, acho que haverá uma explosão de violência no país. Se é que já não começou. Muito desemprego, miséria, pobreza da grande maioria, privilégios dos já poderosos e ricos intocados, falta de democracia, muitas armas e cabeça quente. Estamos numa queda perigosa demais. Elites vão provocar o caos para justificar autoritarismo exacerbado.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Caminhão de som

Fizeram a maior repressão policial aos movimentos sociais e aos protestos populares da história. Criminalizaram a luta. Se engajaram no sistema de corrupção da burguesia, realizando o mesmo tipo de jogo de poder que PSDB e PMDB faziam. Não aceitaram críticas de ninguém. Desqualificaram críticas de esquerda. Abraçaram em nome da governabilidade o pior conservadorismo. Fizeram as alianças mais espúrias em nome de um projeto de poder que não aceitava alternativas. Enfim, foram super arrogantes, iniciaram uma crise gravíssima com cortes absurdos da área social. Sofreram um golpe de seus próprios aliados. E agora são os campeões da democracia brasileira. Sinceramente, estou fora. Principalmente, com esses protestos altamente aparelhados como foi o do dia 14. Aparelhamento clientelista a mil com líderes monopolizando a fala da altura de seus caminhões de falar mais alto. Um horror. Saí correndo de lá super triste. Vamos continuar reféns dessas mitologias políticas que se chocam em nome de quem manipula mais. Para mim, a luta por democracia real é desde baixo e contra os de cima. Sejam vermelhos ou amarelos. Não sou neutro. A luta para mim é contra o sistema do capital e seu Estado.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Embrutecimento favorece a ordem

O cotidiano está tão embrutecido que as pessoas não respondem mais a um bom dia. A gente sente o clima das coisas no ar, no dia a dia. As raivas das pessoas vêm à tona, procurando alvos sobre os quais descarregar sua emocionalidade fraturada. Se os laços já eram frágeis, agora estão virando pó. Mas, ao mesmo tempo, há uma maioria silenciosa bem enquadrada, o que não quer dizer que evite algum tipo de explosão desvairada contra o que quer que seja. E os falantes continuam pedindo para as autoridades constituídas fazerem aquilo que a população deveria fazer, destituir as autoridades constituídas. Quanto mais os falantes pedem ordem, pedem que as autoridades resolvam o problema, mais impotentes estaremos. É que nem o lance de mito para cá e mito para lá. Uma polarização entre mitos políticos é o status quo, mostrando sua força.

O esfacelamento do ethos burguês

O ethos burguês foi constituído a partir da conjunção de dinheiro, poder e intelecto. Parece que estamos vivendo em tempos pós-burgueses. O burguês era astuto. Agora, entregou-se ao papel de um violento trapaceiro. Sempre foram agressivos, mas não eram tão burros. O capitalismo contemporâneo é a vitória da estupidez, é autodestrutivo a enésima potência. O capitalismo financeirizado e desorganizado está minando as próprias condições de funcionamento da acumulação privada de capital. A crise maior é do campo das esquerdas, que não sabem o que fazer, pois estavam acomodadas a uma realidade que foi minada pelo próprio andar de cima do sistema.