quinta-feira, 20 de junho de 2019

Caminhão de som

Fizeram a maior repressão policial aos movimentos sociais e aos protestos populares da história. Criminalizaram a luta. Se engajaram no sistema de corrupção da burguesia, realizando o mesmo tipo de jogo de poder que PSDB e PMDB faziam. Não aceitaram críticas de ninguém. Desqualificaram críticas de esquerda. Abraçaram em nome da governabilidade o pior conservadorismo. Fizeram as alianças mais espúrias em nome de um projeto de poder que não aceitava alternativas. Enfim, foram super arrogantes, iniciaram uma crise gravíssima com cortes absurdos da área social. Sofreram um golpe de seus próprios aliados. E agora são os campeões da democracia brasileira. Sinceramente, estou fora. Principalmente, com esses protestos altamente aparelhados como foi o do dia 14. Aparelhamento clientelista a mil com líderes monopolizando a fala da altura de seus caminhões de falar mais alto. Um horror. Saí correndo de lá super triste. Vamos continuar reféns dessas mitologias políticas que se chocam em nome de quem manipula mais. Para mim, a luta por democracia real é desde baixo e contra os de cima. Sejam vermelhos ou amarelos. Não sou neutro. A luta para mim é contra o sistema do capital e seu Estado.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Embrutecimento favorece a ordem

O cotidiano está tão embrutecido que as pessoas não respondem mais a um bom dia. A gente sente o clima das coisas no ar, no dia a dia. As raivas das pessoas vêm à tona, procurando alvos sobre os quais descarregar sua emocionalidade fraturada. Se os laços já eram frágeis, agora estão virando pó. Mas, ao mesmo tempo, há uma maioria silenciosa bem enquadrada, o que não quer dizer que evite algum tipo de explosão desvairada contra o que quer que seja. E os falantes continuam pedindo para as autoridades constituídas fazerem aquilo que a população deveria fazer, destituir as autoridades constituídas. Quanto mais os falantes pedem ordem, pedem que as autoridades resolvam o problema, mais impotentes estaremos. É que nem o lance de mito para cá e mito para lá. Uma polarização entre mitos políticos é o status quo, mostrando sua força.

O esfacelamento do ethos burguês

O ethos burguês foi constituído a partir da conjunção de dinheiro, poder e intelecto. Parece que estamos vivendo em tempos pós-burgueses. O burguês era astuto. Agora, entregou-se ao papel de um violento trapaceiro. Sempre foram agressivos, mas não eram tão burros. O capitalismo contemporâneo é a vitória da estupidez, é autodestrutivo a enésima potência. O capitalismo financeirizado e desorganizado está minando as próprias condições de funcionamento da acumulação privada de capital. A crise maior é do campo das esquerdas, que não sabem o que fazer, pois estavam acomodadas a uma realidade que foi minada pelo próprio andar de cima do sistema.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A representação da polícia

Ser de esquerda é querer ser representado por quem chama a polícia contra os movimentos? O próprio movimento elege a polícia como instância de organização da experiência nula. Que esquerda masoquista, hein? Que desejo de monarquia imperial stalinista, de ter um Grande Papai que cuide dos desamparados, abastecendo-os de modo clientelista e com paternalismo de abraços e sorrisos, de sentimentos e afetos. Pior do que o retrocesso do bolsonarismo é o retrocesso da esquerdinha desamparada, que se acerca do autoritarismo, acreditando que o autoritarismo é um traço apenas dos outros. Triste demais!

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Compartilhar o infortúnio

Nós, humanos, acreditamos piamente que compartilhar com os outros nossos infortúnios é uma forma de mitigá-los. Por isso, não abrimos mão de relatar nossa infeliz existência uns para os outros. Sem falar que os mais infelizes costumam ser o que se obrigam a manter uma fachada de observância das convenções, mesmo quando o sujeito está em processo de franco desmoronamento.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Ah, a universidade!

O uso de uma imagem negativada do campus universitário público como um lugar de devassidão moral tem sido a principal arma da restauração populista conservadora contra o sistema público de ensino superior. Difundem com rapidez e eficácia junto à população que a vida no campus é de orgia, drogas, desperdício de tempo e recursos. Mal sabem que as universidades públicas são organizações altamente hierarquizantes e disciplinadoras. Lugares de produtivismo do capitalismo universitário. São empresas no sentido neoliberal de produção de subjetividade que atue como capital humano. A universidade hoje é uma empresa que empresaria mão de obra para outras empresas, ensina a forma-empresa requerida pelas tendências neoliberais do capitalismo flexível. Como um lugar de produtivismo pode ser representado como lugar de desperdício e falta de normas? Um lugar hiper normatizado, normalizado, marcado pela lógica da concorrência e da rivalidade, um lugar "moderno", sendo representado como "primitivo". Que imagem estranha é essa de uma universidade de "liberação". É mais gaiola do que "liberação".

Ah, a sociologia!

Estava conversando com um bolsonarista, quando ele perguntou o que eu fazia. Eu disse que era sociólogo, professor de sociologia. Ele ficou inicialmente em silêncio. Aí, eu o provoquei. Parece que o presidente não gosta muito da sociologia, não é? Ao passo que ele me retrucou: "sim, pois vocês falam demais. Não deixam o homem trabalhar. Vocês atrapalham. Falam muito. Ele está fazendo o que tem de ser feito para melhorar". Meu interlocutor, no caso, é um homem do povo, trabalhador, evangélico, negro, pai de família, ex-lulista. O interessante é que no final da conversa que tive com ele, ele falava pelos cotovelos, expressava muito a opinião dele, altamente comunicativo, e me disse que tinha gostado de dialogar, pois sem diálogo não havia solução. É o que o Habermas chama de contradição performativa na teoria da ação comunicativa. Ele dizia que a gente falava demais, mas era ele quem falava demais. Dizia que a gente atrapalhava por querer dialogar, mas defendia o diálogo, contanto que fosse em concordância com o presidente da República, que estava no caminho certo. Interessante, né? Sociologicamente, interessante, quero dizer.