Revoltar-se contra si mesma é a tarefa permanente da esquerda radical e libertária e não ficar tomando sorvete de limão nos estabelecimentos comerciais italianos da burguesia em Fortaleza. Este blog é para criticar a nós mesmos, camaradas!
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Ah, a sociologia!
Estava conversando com um bolsonarista, quando ele perguntou o que eu fazia. Eu disse que era sociólogo, professor de sociologia. Ele ficou inicialmente em silêncio. Aí, eu o provoquei. Parece que o presidente não gosta muito da sociologia, não é? Ao passo que ele me retrucou: "sim, pois vocês falam demais. Não deixam o homem trabalhar. Vocês atrapalham. Falam muito. Ele está fazendo o que tem de ser feito para melhorar". Meu interlocutor, no caso, é um homem do povo, trabalhador, evangélico, negro, pai de família, ex-lulista. O interessante é que no final da conversa que tive com ele, ele falava pelos cotovelos, expressava muito a opinião dele, altamente comunicativo, e me disse que tinha gostado de dialogar, pois sem diálogo não havia solução. É o que o Habermas chama de contradição performativa na teoria da ação comunicativa. Ele dizia que a gente falava demais, mas era ele quem falava demais. Dizia que a gente atrapalhava por querer dialogar, mas defendia o diálogo, contanto que fosse em concordância com o presidente da República, que estava no caminho certo. Interessante, né? Sociologicamente, interessante, quero dizer.
terça-feira, 23 de abril de 2019
O vacilão em evidência
Tem pessoal que acha que vida acadêmica é brilhar em eventos. São especialistas em letreiros. Deixem de enrolação. Vão estudar! Aproveitem a crise para estudar. Mas ainda tem um pessoal que acha que pode virar estrela da noite para o dia. Agem como se estivessem no estrelato, mas mal começaram, mal chegaram. Sequer mostraram para o que chegaram. O recém-chegado que vira estrela. Pessoal cansativo da porra. Adota estilo celebridade sem ter onde cair morta, a pessoa merece piedade? O pior é que usam a linguagem do espetáculo e do capitalismo cognitivo como se fosse uma revolução. Só se for a do atraso. Uns 50 anos de atraso. Deixem de se passar. Não vão chegar a lugar nenhum assim. É preciso aprender a se fingir de morto para sobreviver. Não tentar estar em evidência. É o pior caminho. Tentar ser socialmente agradável é uma merda. Redes que caem em duas semanas. Alianças que duram nem um ano. Trapaças embaralhadas aos sorrisos, tudo isso mata, e mata rápido. O que salva é a luta do trabalho vivo contra o trabalho morto.
Capitalismo universitário faz mal para a saúde
Há o que alguns autores chamam hoje de "capitalismo universitário". A universidade na forma-empresa. Uma injunção que tem de ser enfrentada por todos. Contudo, há os acumuladores, os empreendedores, os agentes que funcionam como pequenas mãos desse capitalismo de empresariamento de recursos humanos e gestão de competências. Os grandes comedores são grandes acumuladores nesse processo. Os que querem abraçar tudo, querem estar em todas as instâncias, não querem ficar de fora de nenhum campo de decisão. São os agentes do adoecimento e da morte. E muito cuidado, pois em geral são simpáticos e calorosos. São carismáticos, populistas. E são homens brancos cuja fala se sobrepõe a de todos. Falam mais alto. Falam com o poder de mando na cabeça. Seja real ou suposto. Não deixem que colonizem suas agendas. Uma agenda acumuladora que engole as agendas dos "parceiros" não é uma agenda parceira. Saiam de perto de agendas comedoras. O grande comedor é tóxico.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Em nome da luta
Acho lamentável quando usam retóricas militantes e ativistas para mascarar percursos individualistas de mobilidade social ascendente. O desejo de poder e a ansiedade de status falam linguagens de coletivos "de luta". Manipuladores do déficit. Capitalismo militante com máscaras de sorrisos e afetos. O coletivo como trampolim de poder. Nas igrejas e nos partidos. Neoliberais, de fato.
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Ungidos para a morte
Notícias de uma segunda-feira pela manhã: mercados de armas muito aquecidos, desemprego nas alturas. Muitas armas e muito desemprego. A nova era. A boa nova. Governo ungido. Homens brancos, mais velhos, que ganham acima de 5 salários, evangélicos, sulistas, defensores de violência em nome de Jesus. É o único perfil nesse momento que apoia muito o governo ungido para a morte. Os próximos 8 anos serão de muita destruição. Essa autopunição infligida pelo brasileiro a si mesmo. Uma vontade de se aniquilar, de exterminar sua própria vida, algo que produz mais adoecimento, miséria e morte.
domingo, 14 de abril de 2019
Double Bind
Como professor e pesquisador, se chamo um estudante para o jogo, estou chamando para a lógica concorrencial do mercado, para ser precariado, mas se eu não chamo para o jogo, eu o estou excluindo da possibilidade de ser precariado. Se eu chamo para a luta, para a luta contra o sistema, não tenho cacife para tanto, afinal, quem sou eu e onde estou para chamar os outros para a luta? Um mato sem cachorro. Uma vida de contradições. Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. De qualquer modo, chamo para ser precariado e para ser da luta ao mesmo tempo, mas não é fácil, uma coisa nem outra, pra ninguém. Não há solução viável nesse contexto atual. Mas, e aí? Vamos partir para um tudo ou nada? Sei lá, não faço a menor ideia. Minha única certeza é que o ódio ao existente é condição de liberdade.
Liberdade, igualdade e solidariedade.
A governança neoliberal do capitalismo desorganizado depende da desdemocratização para funcionar. Neoliberalismo rima com autoritarismo. Até a democracia liberal mais água com açúcar é tratada como inimiga. A adesão imediata ao neoliberalismo revela um profundo desejo de morte e autoritarismo. Todos contra esse regime de desigualdades e crueldades. A luta por democracia real é uma luta desde baixo contra os senhores da guerra e seus prepostos. Educação, saúde, alimentação, moradia e muita arte garantidos para todos, sem exceção. Contra os mercados da morte, nos insurjamos.
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