quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Letargia e mais letargia

O país entrou em total letargia, está aceitando tudo. O sonho da ordem realizado. O andar de cima está comemorando o silêncio e a adesão do andar de baixo. Ainda bem que estão quietos e ordeiros, diz o topo entre um uisquinho e outro.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Retóricas perdedoras ou vencedoras?

Em geral, as retóricas militantes radicais partem de indivíduos em ascensão social. Tenho percebido isso. Talvez, tenha uma relação com a variação da percepção da injustiça em função de uma expectativa de realização mais elevada. Os indivíduos com baixíssimas expectativas de realização, que estão em conformidade com o destino social que lhes é atribuído, tendem a ter uma percepção mais tolerante com a violência do sistema. Ter um lugar nomeado pelo sistema, nem que seja um lugar muito "simples", "humilde", pode ser um fonte poderosa de orgulho individual, mas pode ser também de vergonha. Uma vergonha que paralisa ou um orgulho que gera aceitação por ter um lugar na hierarquia. Afinal, quando há hierarquizações a regra é que aja alguém sempre abaixo que pode fazer com quem alguém se sinta acima. Alguém pode oprimir ou rir com menosprezo de alguém, esse é o segredo da dominação hierárquica. Dar a possibilidade de alguém humilhar o outro é uma função de ordem. Os militantes radicais com trajetórias de ascensão social para um tipo de "nova classe média" dilmista humilhavam de modo consciente ou não vários de seus pares, que se tornaram quase todos bolsonaristas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

As coisas invertidas

No Brasil, os mais excluídos e com menos chances de adentrar nos mercados altamente competitivos, e que exigem pleno conhecimento incorporado da forma-empresa, defendem o capitalismo neoliberal desorganizado. Já os que estão incluídos, que sentem já na pele a desgraça que os outros desejam, pedem arrego, exigindo respeito aos direitos dos trabalhadores. A ideologia neoliberal virou coisa de pobre e o socialismo coisa de rico. Como fazer luta de classes assim?

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

é o fim

é um gosto de nada na boca, uma vontade de sair correndo, fugir. as pessoas estão adoecendo, algumas morrendo, muitas apáticas. bate aquela sensação de que não dá para confiar nem na própria sombra. a própria ideia de ser gentil passa a ser parecida com a de ser otário. a pior canalha, a mais inescrupulosa, o rebotalho, está aí no altar. ninguém segura a mão de ninguém. essa é a dura verdade. pessoal finge apenas, ninguém vai lá perder tempo sendo solidário. é o fim. quando chamam alguém de amigo é para tirar algum benefício. não adianta fazer festa, a festa é da ordem da crueldade. não dá mais para dizer que está tudo bem. não está. a imposição do vazio não encontra mais tanta resistência. não haverá reconciliação. não haverá paz. uns tombam, outros morrem, muitos se ajoelham e pedem clemência.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Uma baita de uma enrascada

O pior é que o petismo não tem moral nenhuma para dizer que os outros estão enrolados. Zero moral. Nesse ponto, os bolsonaristas estão certos. Mas estão errados por acharem que o bolsonarismo não é um tipo de petismo com sinal trocado, com as mesmas práticas de clientelismo e corrupção, uns hipócritas. Por isso que enquanto ficar essa palhaçada entre petismo e bolsonarismo, incluindo o cirão das massas como variante acovardada do petismo, a gente não sai do canto. Tudo travado. O pior de tudo é o Boulos com esse lulismo oportunista que ele inventou e enterrou o psolismo junto. Só deserto. Só lasqueira. 20 anos nessa merda vai ser foda. Como dizia o poeta, é cada um por si e Deus contra todos. O Brasil "de bem" nos meteu numa enrascada sem tamanho!

Discurso de um cínico

Em geral, o que se chama "luta", "de luta", "movimento de luta", nos dias de hoje não faz nem cócegas no funcionamento brutal do sistema de dominação. A luta ou tem função festiva ou terapêutica ou as duas coisas ao mesmo tempo. Menos função de luta. Não sei por que ainda se chama luta, deveria assumir que é apenas autoajuda, estipulada para lidar com os sentimentos de impotência, isolamento e ressentimento. Luta que é luta gera efeitos de desestabilização, efeitos de desmantelamento, gera portanto forte repressão por parte do Estado. Sem falar que a forma-empresa tomou conta "da luta", esta está quase sempre orientada para e por um processo de capitalização eleitoral, as pessoas se vestem bem para participar dela. Lutas desde baixo e contra o Estado-capital viraram um slogan, uma publicidade bruxuleante. E lutas eleitorais viraram máquina de empregar militâncias remuneradas. Uma tristeza infinita parece restar com essas manifestações "de lutinha". Formas tímidas de aceitação do existente. Mas as retóricas são uma paixão, né? Sem retórica, não fica nada. Só o vazio da inação. Então, viva a luta! Avante! Observação: o cínico sou eu.

A favela paradoxal

Achar que não faz parte da favela é a maior ilusão. Seja favela como estigma ou como raiz da riqueza cultural e econômica. A favela é tratada como campo de extermínio pelo Estado. É produzida como campo de extermínio. Mas, ao mesmo tempo, a favela é quem sustenta a produtividade para garantir a vida rica das classes ociosas que mandam no Estado. A favela é alvo de uma política de morte. Mas a favela é a força de trabalho e de combate da nação. É a força que gera riqueza sendo excluída de seus benefícios. Gera riqueza para classes privilegiadas que se esmeram em manter a favela sob controle, seja com polícia, crime ou igreja. A favela é o Brasil. Mas nem todo Brasil está na favela. Mas a grande maioria está, mesmo quando não quer aceitar que está. Os conflitos sociais estão nas últimas décadas oscilando entre vergonha ou orgulho de ser favela, submissão à ordem senhorial ou insubmissão contra a casa-grande, contra a ordem escravocrata e colonial, que não sai de nós.