Revoltar-se contra si mesma é a tarefa permanente da esquerda radical e libertária e não ficar tomando sorvete de limão nos estabelecimentos comerciais italianos da burguesia em Fortaleza. Este blog é para criticar a nós mesmos, camaradas!
domingo, 10 de fevereiro de 2019
Uma baita de uma enrascada
O pior é que o petismo não tem moral nenhuma para dizer que os outros estão enrolados. Zero moral. Nesse ponto, os bolsonaristas estão certos. Mas estão errados por acharem que o bolsonarismo não é um tipo de petismo com sinal trocado, com as mesmas práticas de clientelismo e corrupção, uns hipócritas. Por isso que enquanto ficar essa palhaçada entre petismo e bolsonarismo, incluindo o cirão das massas como variante acovardada do petismo, a gente não sai do canto. Tudo travado. O pior de tudo é o Boulos com esse lulismo oportunista que ele inventou e enterrou o psolismo junto. Só deserto. Só lasqueira. 20 anos nessa merda vai ser foda. Como dizia o poeta, é cada um por si e Deus contra todos. O Brasil "de bem" nos meteu numa enrascada sem tamanho!
Discurso de um cínico
Em geral, o que se chama "luta", "de luta", "movimento de luta", nos dias de hoje não faz nem cócegas no funcionamento brutal do sistema de dominação. A luta ou tem função festiva ou terapêutica ou as duas coisas ao mesmo tempo. Menos função de luta. Não sei por que ainda se chama luta, deveria assumir que é apenas autoajuda, estipulada para lidar com os sentimentos de impotência, isolamento e ressentimento. Luta que é luta gera efeitos de desestabilização, efeitos de desmantelamento, gera portanto forte repressão por parte do Estado. Sem falar que a forma-empresa tomou conta "da luta", esta está quase sempre orientada para e por um processo de capitalização eleitoral, as pessoas se vestem bem para participar dela. Lutas desde baixo e contra o Estado-capital viraram um slogan, uma publicidade bruxuleante. E lutas eleitorais viraram máquina de empregar militâncias remuneradas. Uma tristeza infinita parece restar com essas manifestações "de lutinha". Formas tímidas de aceitação do existente. Mas as retóricas são uma paixão, né? Sem retórica, não fica nada. Só o vazio da inação. Então, viva a luta! Avante! Observação: o cínico sou eu.
A favela paradoxal
Achar que não faz parte da favela é a maior ilusão. Seja favela como estigma ou como raiz da riqueza cultural e econômica. A favela é tratada como campo de extermínio pelo Estado. É produzida como campo de extermínio. Mas, ao mesmo tempo, a favela é quem sustenta a produtividade para garantir a vida rica das classes ociosas que mandam no Estado. A favela é alvo de uma política de morte. Mas a favela é a força de trabalho e de combate da nação. É a força que gera riqueza sendo excluída de seus benefícios. Gera riqueza para classes privilegiadas que se esmeram em manter a favela sob controle, seja com polícia, crime ou igreja. A favela é o Brasil. Mas nem todo Brasil está na favela. Mas a grande maioria está, mesmo quando não quer aceitar que está. Os conflitos sociais estão nas últimas décadas oscilando entre vergonha ou orgulho de ser favela, submissão à ordem senhorial ou insubmissão contra a casa-grande, contra a ordem escravocrata e colonial, que não sai de nós.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
A crise recôndita
As pessoas estão vivendo a crise econômica e política como se fosse um problema íntimo e pessoal. As pessoas não expõem suas dificuldades nas redes como expõem suas "felicidades". As dores, as pequenas misérias, ficam todas escondidas debaixo do tapete. Mas a gente sabe, a gente sofre e sabe que as coisas não estão bem. O contexto político está nos deixando super para baixo. Afeta todo mundo de um jeito ou de outro. Minhas primeiras aulas do semestre serão conversando sobre a crise. Precisamos falar, conversar sobre isso. Silenciar é pior, muito pior.
Militância de merda
O Lula foi abandonado e esquecido. Ninguém luta por ele. Só de mentirinha para desencargo de consciência. Mas lutar mesmo por ele, ninguém luta. É um líder que foi enterrado vivo pelo seu próprio povo. Esquecido e abandonado pela própria militância que só pensa em cargos e em acumular capital eleitoral para gerar mais crescimento partidário com a distribuição de cargos. Uma máquina insensível e despolitizada, o partido. Vivem de hashtag, quando a resistência pede rua. Vivem no bem bom da hashtag. Se acovardam diante da morte simbólica do seu própria líder. Lula sendo enterrado vivo e ninguém vai para as ruas. Compactuam, então. Omissos. Mas em período eleitoral, com 50 ou 100 reais no bolso, liberado lá na sede para o lanche,, com a bandeira na mão, é todo mundo sorrindo nas ruas, cantando Lula lá. Pensem numa militância de merda.
Nova classe média explosiva
Minha hipótese é de que há, sociologicamente, uma conexão de sentido entre a "nova classe média" da Dilma e o bolsonarismo, há uma continuidade de práticas na descontinuidade de sentido atribuído às práticas, uma dissociação. Quando querem acusar 2013 como responsável pelo início da onda "verde-amarela", em geral, essa acusação vem da militância partidária da esquerda oficial, joga-se para debaixo do tapete o efeito conservador provocado pela jogada da "nova classe média". O "liberalismo social" estimulado pelos governos do lulismo e do dilmismo estimularam a reversão do pobre conservador para a direita de onde tinha sido tirado pela habilidade política do Lula. O empobrecimento das classes médias gerenciais desde o primeiro governo Lula também é um fato que precisa ser melhor analisado. Os governos do petismo funcionaram como um imenso aparato de RH, baixando salários, precarizando condições, para gerar integração marginal em larga escala, a dita "nova classe média". Esse "liberalismo social" está mais ligado ao fenômeno do novo conservadorismo do que 2013.
A retórica do vencedor
Um erro grave é inflacionar a própria imagem de sucesso quando se é, existencialmente, um ser destinado a desaparecer e a ficar invisível, a ser excluído da integração perversa do capital. Muita gente adoece por causa desse erro crasso. Quem não entender que essas retóricas de perdedor e vencedor que o liberalismo inventou é uma armadilha, pois, afinal, no sistema do capital somos todos perdedores, com perdas diferencialmente distribuídas, vai entrar pelo cano ainda mais. Quado a gente é recém-chegado, a gente tende a cometer esse erro. O preço que se paga é alto, se paga com a saúde. Não se deve esquecer que a precariedade é a condição universal. Nem que entre o normal e o patológico, a base da oposição é o espaço vazio. Não adoecer num momento que a massa adota a retórica do vencedor para se sentir distante do lugar que realmente ocupa, o do perdedor, é a tarefa ecológica por excelência.
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